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Depois do Fogo. Uma Caminhada pela Floresta (Muito) Negra

15 de agosto de 2015 – A Vida em Portugal – Autora: Dra. Jude Irwin

Ao lerem isto, alguns de vós já devem estar “habituados” a isso aqui em Portugal. De certo que já presenciaram incêndios florestais e leram sobre eles, e certamente também já experienciaram a amargura de ouvir o som das sirenes, o fumo a deflagrar e os desvios rodoviários tantas vezes que, mais um incêndio, é apenas “só mais um”.

Mas para mim e para o Keith, os incêndios em torno de Figueiró dos Vinhos, durante a primeira semana de agosto 2015 foi a nossa primeira vez. Foi a primeira experiência de uma conflagração de rápida propagação e de potencial catastrófico. Foi chocante e impressionante ao mesmo tempo.

Uma semana depois de mais de 600 bombeiros terem abandonado o local, e do último helicóptero ter vazado o seu saco de água em toda aquela madeira crepitante e em todo aquele mato, achámos que seria seguro explorarmos o local mais de perto.

Como pessoas genuinamente curiosas, quisemos investigar ao máximo onde o fogo teria começado e onde teria terminado, o que teria queimado (ou não), e se os nossos amigos estavam todos bem, bem como as suas propriedades que se atravessaram no caminho do fogo.

Se nunca fez uma caminhada deste género aos rescaldos do pós-fogo, de certo que vai gostar de nos acompanhar através das seguintes fotos (quase todas elas tiradas pelo homem talentoso com quem me casei).

Não há pior sensação do que sentir a picada acre do fumo na garganta e vermos o cenário com os nossos próprios olhos. Mas se resolverem ir ver a floresta encarvoada, tenham cuidado. O fogo é uma coisa complicada que deixa armadilhas para os menos cuidadosos, e um fogo nem sempre se pode considerar apagado simplesmente porque não se vê nada a arder…

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Para começar, aqui segue um mapa que mostra aproximadamente a área a que nos referimos.

Como se pode ver, estende-se desde a estrada N236-1 pela encosta abaixo através de Porto Negro até a estrada N350, rota principal de acesso a Pedrógão Grande.

O fogo cruzou aquela estrada e continuou a subir a encosta novamente. Com base no que observámos no dia em que vimos pela primeira vez o fumo do fogo a partir do terraço da casa onde moramos em Figueiró dos Vinhos, este virou mais ou menos de nordeste para sudoeste às vezes, empurrado com notável rapidez por uma forte rajada de vento.

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Gramíneas ressequidas e pequenos arbustos como urzes e estevas (cistos) arderam primeiro. A cinza mais funda pode ser encontrada nas valas onde estas espécies cresceram, cada uma canalizando e alastrando as chamas para a frente.

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Fora da área ardida, espécies nativas fornecem uma cobertura valiosa em raízes frescas estendidas pela terra que estimula o crescimento, mantém a estabilidade do solo e retém nutrientes essenciais.

Depois de um incêndio na floresta, a terra fica recozida, dura e quebradiça. Todas as bactérias úteis e fungos morrem, e o equilíbrio da vida fica destruído.

Os solos florestais conservam os nutrientes de forma eficiente. Quando são limpos de vegetação, o cálcio e o potássio perdem-se (aumentando a sua perda num espectro de) 20 vezes: a perda de nitrogénio é ainda maior, à medida que o seu escoamento quadruplica em comparação à floresta anterior.”

Hubbard Brook Test, USA 1965-66, citado em Mediterranean Gardening by Heidi Gildemeister ISBN 84-273-0749-7.

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Milhares de profundas grutas de raízes queimadas esperam desintegrar-se aos primeiros passos dos caminhantes menos cautelosos… ou esperam até engolir uma criança que para lá vá brincar.

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Um sinal metálico para Bouça da Figueira ficou carbonizado, um caixote do lixo derreteu ficando só uma língua negra de plástico ao pendurão, e as árvores inclinaram-se como em forma de armário de vapor – tudo isto sofreu temperaturas altíssimas.

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A casca do sobreiro naturalmente grossa e resistente ao fogo salvou esta árvore. Supostamente o Direito português protege” o sobreiro ou a quercus suber, mas o corte e o estrago “acidental” continuam a ser negligenciados.

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Eucaliptos constroem constantemente montes de fogueira” com as cascas dos próprios troncos. O fogo ajuda a que se espalhem e se multipliquem, enquanto dizimam outras espécies.

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As chamas consumiram postes e derrubaram trechos consideráveis de cabos telefónicos, mas os trabalhadores da Portugal Telecom restauraram o serviço em apenas alguns dias após o incêndio. Impressionante!

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Demasiado perto para alguém continuar calmo. O fogo alastrou até o teto da casa e consumiu o deck de madeira.

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Os Bombeiros trabalharam freneticamente, a cortar árvores para abrir uma atalhada para salvar a casa acima referenciada – e lá conseguiram. Pelo menos desta vez…

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Pomares, vinhas e olivais ficaram perdidos, a apenas algumas semanas da colheita.

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Apenas uma das muitas vítimas: um lagarto carbonizado eviscerado pelas formigas.

A floresta queimada é um lugar silencioso: não há insetos, não há aves, não há quaisquer mamíferos – exceto nós – os seres humanos – a olhar para os flagelos que a nossa espécie cria vezes e vezes sem conta.

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Uma semana depois: a terra ainda escalda se lhe tocarmos.

O incêndio continua no subsolo, seguindo as raízes que o alimentam. Acima do solo, ainda há uma abundância de matéria seca para consumir. As chamas poderão ressurgir a qualquer momento, em qualquer lado.

Vencedores contra Vencidos: espécies introduzidas como o eucalipto que é cultivado em grande número uma vez que proporciona dinheiro fácil”, na verdade, gostam do fogo, pois eliminam assim a concorrência das outras espécies.

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Precisamos urgentemente de reformas no planeamento florestal e nas leis de gestão, incluindo:Árvores pequenas e arbustos desapareceram, mas os eucaliptos maiores sofreram apenas carbonização superficial. Por baixo da casca exterior elas ainda estão saudáveis, e a madeira ainda é vendável, uma vez limpa. Isso é razão para celebrar, para quem cultiva eucaliptos. O resto da população – todos nós – e o próprio paísPortugal – continuam a pagar um preço alto demais cada vez que há um incêndio florestal.

  1. Incentivos para substituir os eucaliptos por culturas alternativas, como o castanheiro, a nogueira e o carvalho,
  2. Substituição da forma de plantação de eucaliptos, com faixas ou mosaico de plantio de espécies folhosas mistas,
  3. Mais “reservas naturais” de espécies originais nativas – incluindo arbustos e espécies de cobertura do solo,
  4. Multas para os proprietários que não removam a casca incendiária à volta dos eucaliptos, pelo menos anualmente, antes da época dos incêndios’.

Fotos e texto © Jude & Keith Irwin, Figueiró dos Vinhos, Portugal 2015. Para obter permissão para usar parcial ou totalmente este conteúdo, por favor envie um e-mail para proulxjude@gmail.com.

Tradução do inglês: www.learn-portuguese-with-rafa.com. (UK)

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