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Beber de uma Nuvem

15 de agosto de 2015. A Vida em Portugal – autora: Dra. Jude Irwin

Hoje, enquanto fazia a minha corrida matinal e me movimentava calmamente através da névoa fria que se espalhava pela encosta arborizada abaixo, eis que me deparo com um mistério. Os raios de sol já começavam a queimar, criando manchas de azul vívido por cima de mim. Porém… Eu conseguia ouvir um ruído: era a inconfundível e bem-recebida água neste violento verão de seca e de incêndios florestais: Sim, estava a chover!

Ou melhor, estaria mesmo? Se assim fosse, por que razão é que não me molhava? Intrigada, segui o som até ao ponto de onde provinha. Ao mesmo tempo, capacitei e imediatamente pensei em África.

Durante cerca de 18 meses, vivi em Swakopmund, na Namíbia, uma pequena cidade desgastada, trilhada entre a costa Atlântica ocidental e um vasto e brilhante deserto devastado pelo calor.

Lá, o nevoeiro é às vezes tão denso que não se consegue ver de um lado para o outro da rua. Este forma uma camada de ar quente do interior que abraça a terra à medida que colide com as correntes oceânicas frias de Benguela e que começam a virdo sul distante. Entre as dunas elevadas desta gritante “Costa Esquelética”, as temperaturas da areia podem chegar aos 70 graus centígrados, e as chuvas são tão raras que nem compensa medi-las. Podemos imaginá-la como uma zona desolada, mas o ecossistema excecional do cordão de dunas realmente sustenta a permanência de muitas espécies de plantas e animais curiosos que recolhem e acumulam a água de forma impressionante.

Os frutos do arbusto espinhoso Nara (também conhecido como as Fábricas de Bolas de Futebol do Homem da Selva) retêm água potável – sendo isto apenas uma das muitas maravilhas das dunas da Namíbia.

Uma criatura em particular veio-me à memória enquanto caminhava no trilho da floresta empoeirada: a Carocha do Deserto da Namíbia. Quando ela se sente sedenta de água, a Stenocara Gracilipes sobe até ao cume da duna e põe-se praticamente de cabeça para baixo, inclinando o corpo a 45 graus. Equilibrando-se delicadamente nas suas longas patas, como uma bailarina na ponta dos pés, ela desfruta da brisa que corre. Lentamente, do mar enrolado saem pérolas de névoa em forma de gotículas que caem sobre suas asas nodosas, até que a gravidade as faz descer por canais de cera em direção à sua boca sequiosa.

O meu misterioso “homem da chuva” Português acabou por ser algo menos bizarro e, francamente, muito comum por estes lados: estou a falar de um eucalipto maduro.

Enquanto olhava, a sua copa alta absorvia nuvens de vapor que passavam; cada folha longa, dura, ligeiramente côncava apontada para baixo, canalizava gotas de água para o solo em torno das suas raízes numa forma de chuveiro firme e substancial. Reparei também nos carvalhos vizinhos. Eles também estavam a tentar a mesma proeza de se auto-regarem, mas com menos sucesso. As suas folhas mais largas e achatadas não atuavam como calhas eficazes, e a luz solar evaporava rapidamente as gotas que repousavam na folhagem que as suportava.

O aspecto áspero, a casca enrugada de cada folha larga também parecia absorver a humidade assimilando alguma antes de chegar à terra, ao passo que a pele lisa da árvore do eucalipto canalizava muito mais água para a sua base.

A Carocha do deserto e a árvore da “terra do fogo” adaptaram-se de forma eficaz para serem capazes de suplicar a bebida que literalmente vem do céu.

Onymacris unguicularis, Namibia’s “headstand beetle” has adapted brilliantly to be able to cadge a drink literally out of the blue.

Eucaliptos: Adore-os ou Deteste-os.

Cerca de 6.500 quilómetros quadrados do território português são cobertos por várias variedades de eucaliptos produtores madeira e de papel.

Acesos debates têm sido travados há já vários anos a tentar discernir se isto é uma “coisa boa”, porque produzem rendimentos para os donos das plantações e, assim também aumenta a receita fiscal para os cofres do estado português, ou uma “coisa má“, uma vez que os eucaliptos causam um enorme dano ecológico.

Cada eucalipto prepara a sua própria fogueira’ ao espalhar muita da sua casca.

Eu sou francamente honesta em relação à minha posição. Eu sei que esses “intrusos” são sobreviventes notáveis, como as fotos que acompanham esta peça o demonstrarão. Mas eu prefiro paisagens bio-diversificadas à monocultura de qualquer espécie. Considero que o planeamento e a administração florestal devem ser mais do que a mera produção de lucro para os investidores.

Acredito que os insetos, as aves, os répteis e os mamíferos – incluindo os humanos merecem um ambiente melhor do que os monopólios dos valentões defensores dos eucaliptos, que quase totalmente excluem as outras espécies e empobrecem o solo até este deixar de servir para mais nada, exceto a erosão. E não nos esqueçamos da sua tolerância – ou devo antes dizer preferência pelos incêndios florestais frequentes.

Sobreviventes: a maioria das vítimas dos incêndios são as pequenas árvores e os pequenos arbustos. Os grandes eucaliptos ficam negros, mas saem essencialmente ilesos. A madeira pode sempre ser “limpa” para poder ser vendida.

O tal debate das coisas boas contra as coisas más” está agora a ser travado em todo o mundo no sentido de reduzir as grandes extensões de eucaliptos.

Existem várias forças que impulsionam este fenómeno. Por exemplo, a era digital em que vivemos proporciona informação virtual em computadores e dispositivos móveis. Realmente não precisamos de tanto papel assim para conseguirmos comunicar uns com os outros. Mas o principal fator aqui é a mudança climática.

De ano para ano, vemos as nossas estações do ano a mudar um pouco. As temperaturas a aumentarem. As chuvas que costumavam ser previsíveis e abundantes, agora são escassas e pouco fiáveis em muitos países. Os reservatórios de água estão a ficar vazios. Destrutivos incêndios florestais ocorrem com mais frequência, e o carbono que expelem para a atmosfera polui o ar que respiramos. A terra encarvoada absorve mais calor e acelera a mudança climática ainda mais.

Perante tal desastre global iminente, haverá ainda argumentos plausíveis para o plantio de árvores que aumentam os riscos de incêndio e sugam tanta da nossa preciosa água?

A cobertura do solo por composto valioso, por urzes e estevas por exemplo, ardem rápido, deixando a terra exposta, cozida, dura e quebradiça. Isto irá tornar o solo árido logo que caiam as primeiras chuvas fortes.

Quanta água é que um eucalipto realmente bebe?

No ICRAF Centro Agroflorestal do Quénia, cientistas que trabalham em parceria com a Universidade da Austrália Ocidental desenvolveram um meio de medir a quantidade de água que qualquer tipo de árvore consome, meio este que é incontestavelmente considerado o mais preciso do mundo. A ideia por trás dele fundamenta-se em cerca de 50 anos de estudos publicados, mas só recentemente foi possível desenvolver uma técnica robusta, precisa e fácil de usar, graças à tecnologia digital avançada.

Muito sumariamente, o método utiliza três sondas digitais inseridas numa árvore para medir o fluxo de seiva que corre em ambos os sentidos na haste da mesma, para cima e para baixo. As agulhas superior e inferior contêm placas sensíveis ao calor, enquanto que as do meio desenvolvem um impulso de calor uniforme em toda a profundidade do borne. Todas as sondas são ligadas a um computador com um microprocessador de 16 bits que converte leituras analógicas em resultados digitais calibrados. Para compensar pequenas variações e imprecisões, são feitas múltiplas leituras. Todos os dados são então armazenados num chip de memória e ficarão disponíveis aos membros do ICRAF ou aos seus associados e parceiros internacionais.

Munidos de dados claros, os cientistas agora podem aconselhar com autoridade científica delegados agroflorestais e agricultores em relação a esta matéria, nomeadamente quais são os tipos de árvores tolerantes à seca que devem plantar, bem como a quantidade de água que estas vão precisar.

Os eucaliptos encontraram-se entre as primeiras árvores estudadas pelo ICRAF, uma vez que muitos são cultivados para a produção de madeira e de papel – e, francamente, já é tempo de começarmos a resolver a questão pertinente de discernir quais são as espécies que consomem muita água e quais são aquelas que consomem pouca.

Segundo o Dr. Chin Ong, um dos principais investigadores agroflorestais que liderou o desenvolvimento do sistema ICRAFUWA, O eucalipto é a árvore mais sedenta de água de todas.Mesmo em dias em que há escassez de água, cada árvore consumirá 10 litros por dia.”.

Multiplique-se isso por milhões de eucaliptos que crescem só em Portugal, e acrescente-se o uso impressionante da água que se escasseia. Agora consideremos o seguinte: no verão de 2015, Portugal recebeu apenas 10% da sua precipitação sazonal habitual. Então, onde está a água de que todos precisamos para a nossa sobrevivência? Os Eucaliptos sabem. Eles são capazes de afundar as suas raízes principais o mais longe possívelpara poderem alcançar o lençol de água subterrâneo; por outras palavras, quando há água subterrânea, sabemos exatamente quais as espécies que são capazes de a ir buscar.

Uma cinza profunda circunda os eucaliptos superficialmente carbonizados e os restos de um carvalho venerável que se perdeu para sempre.

Neste momento, o Dr. Chin encontra-se a trabalhar no aconselhamento dos agricultores da África Oriental no sentido de remover os eucaliptos cultivados para fins comerciais ou de cessar a replantação destes aquando do seu corte, e a substituí-los por culturas de árvores alternativas de madeira / de produção de frutos secos. É este o conselho que Portugal deve ponderar.

Se usarmos um cartão de crédito para fazer compras e se gastarmos mais do que ganhamos, estaremos certamente em sarilhos. O mesmo acontece com o eucalipto que, como provado pelo método do fluxo de seiva, usa mais água do que a própria natureza pode fornecer.” – Dr. Chin Ong, ICRAF, Quénia.

O cartão de crédito ecológico português estourou”. O nosso mundo natural está a entrar na falência, e outras espécies (incluindo as pessoas) estão a ser roubadas dos seus direitos básicos de ter suficiente água, ar puro, e segurança sensata na luta contra os incêndios. E porquê? Simplesmente para que os proprietários de terrenos particulares, as grandes empresas e os acionistas possam encher os bolsos. Mas quem paga pelos danos causados por estes senhores?

Nós. Todos nós. Ano após ano.

Para todos os que vivem perto de plantações de eucaliptos, eu digo o seguinte: Se deseja que esta situação mude, não fique em silêncio. Fale. Organize-se. Forme grupos. Faça petições e ensine aqueles com poder o que é que é o planeamento e a gestão florestal: “Está na hora de mudar.Não pode haver mais imparcialidade sobre esta questão. Não podemos mais ficar na corda bamba à espera de decidir para qual dos lados vamos cair. A tal dita corda já está a arder.

Um lagarto queimado, já eviscerado pelas formigas. Uma semana após os incêndios perto de Figueiró dos Vinhos, o solo ainda está quente e as raízes profundas ainda ardem.

Para aprofundar a leitura sobre o ICRAF visite: http://www.worldagroforestry.org/about_us

Para saber mais sobre os fundadores do ICRAF, o Consórcio de Centros Internacionais de Investigação Agronómica visite: http://www.cgiar.org/ e, em particular, para saber mais sobre este importante Instituto de Gestão e Avaliação Ambiental visite http://www.iema.net e leia o documento que mensiona um projeto que estuda a substituição dos eucaliptos no Algarve.. http://www.iema.net/news/preserving-portugal%E2%80%99s-cork-heritage-next-generation

Fotos e texto © Jude & Keith Irwin, Figueiró dos Vinhos, Portugal 2015. Para obter permissão para usar parcial ou totalmente este conteúdo, por favor envie um e-mail para proulxjude@gmail.com.

Tradução do inglês: www.learn-portuguese-with-rafa.com (UK)

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